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Fique em casa, mas não fique parado


Filme "O menino que descobriu o vento"

Economia do compartilhamento é uma expressão que vem se destacando como realidade no meio profissional em muitos setores e atividades profissionais. Essa tendência que já vinha crescendo agora se torna praticamente uma necessidade para todos.


Vivemos hoje uma crise de saúde que já se reflete profundamente na economia mundial e o choque de realidade paralisa muitos indivíduos e empresas. Afinal são as pessoas que movem tudo e seus sentimentos e expectativas resultam em um melhor ou pior desempenho em tempos de normalidade.


Sabemos que a cada dia essa normalidade está ficando mais no tempo passado, mas também não podemos deixar de vislumbrar o papel de cada um na árdua construção que nos aguarda nesse futuro inesperado. Os reflexos virão de toda forma e não estaremos imunes aos novos desafios que se apresentam, assim como não estamos imunes à doença.


O desafio de hoje é permanecer em casa. Muitos ainda resistem mesmo sabendo que essa é a atitude mais sensata para conter a propagação do vírus. Permanecer em casa e ser ainda mais produtivos nesse contexto é uma outra realidade à qual temos que nos adaptar. Até agora a casa representa o lugar de descanso e lazer, de reunir os amigos e a família, na varanda do apartamento, no quintal de casa ou no famoso churrasco da laje. Acabou por enquanto. Tudo que sempre amamos fazer está temporariamente suspenso e a casa se tornou o novo local de trabalho.


Não devemos sair, mas a vida não pode ficar parada. Nem as ideias, nem os projetos, nem o sonho de cada um. Talvez tudo demore um pouco mais para se concretizar, mas em alguns meses a roda volta a girar lentamente, depois adquire outra velocidade e vamos continuar fazendo parte dela.


Esse pensamento me trouxe a lembrança do filme “O menino que descobriu o vento”, inspirado na história real de Kamkwamba, o jovem africano que construiu um moinho de vento caseiro aos 14 anos. Durante a fome mais mortal do Malawi, ele foi forçado a abandonar a escola porque sua família não podia mais pagar as mensalidades anuais.


Inconformado com a situação da seca, ele continuou frequentando a biblioteca da aldeia para consultar um livro chamado Using Energy. Estudando as ilustrações, já que mal sabia ler inglês, Kamkwamba conseguiu construir um moinho de vento que acionou uma bomba para captar água do solo ressequido. Os recursos utilizados foram: uma bicicleta quebrada, uma pá de ventilador de trator, um velho amortecedor e árvores de eucalipto azuis.



“I try, and I made it.” William Kamkwamba, em sua palestra no TED

Essa história emocionante pode ser uma grande força de inspiração em um momento como esse que estamos vivendo. Ao contrário de Kamkwamba temos muitos recursos à nossa disposição e mesmo trabalhando em casa ainda podemos acessar uma rede de conhecimento que multiplica todas as possibilidades. Podemos também exercitar a nossa criatividade e inventar novos processos de trabalho, contribuir de forma ainda mais efetiva para inovar e oferecer uma contribuição ainda mais efetiva nos nossos negócios ou nas empresas para as quais colaboramos.


Todos os negócios precisarão de um esforço adicional para vencer as dificuldades que se apresentam agora e as que ainda não sabemos com que impacto virão. Mas hoje temos a enorme possibilidade de aproveitar essa pausa forçada para agir e oferecer o melhor das nossas competências e habilidades como pessoas e como profissionais. Sabemos que existe uma enorme parcela da população que já vive em condições absurdamente precárias, um quadro que pode piorar ainda mais. O que vamos fazer para que a economia se recupere mais rapidamente e todos possam ser incluídos nesse crescimento com mais oportunidades de vida e de trabalho?


Enquanto muitos pensam que essa pausa é uma folga oportuna para ir à praia, agindo como insensatos que desdenham do perigo, outros encaram o home office com a responsabilidade que o momento requer. Mas alguns e eu gostaria que fossem muitos serão os novos meninos descobrindo o vento. Vão usar todos os recursos que encontrarem e buscarão a ajuda de outros para criar projetos compartilhados, propor inovações que a rotina não permitia desenvolver e farão a diferença nesse mundo que acaba de entrar em um profundo processo de transformação.


Esses, os diferentes mais que necessários, vão construir uma nova realidade, erguerão moinhos onde só havia vento e trarão de volta a esperança que hoje parece quase perdida, mas se encontra apenas guardada esperando que cada um faça mais do que a sua parte.


Luiz Augusto Franzolin

CEO Franzolin Engenharia